Dependência química

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A dependência química é uma doença crônica do cérebro e que pode recidivar, ou seja, a assistência médica e psicológica não garante 100% de cura. É também uma doença complexa e, no caso do crack, podendo ter frequentemente um final trágico, pesquisas da UNIFESP mostram que mais de 30% dos usuários morrem no curto prazo. Natural, portanto, as discussões em torno da melhor maneira de efetuar o tratamento.

O consumo de crack se alastrou particularmente na última década, com o notório aumento do número de dependentes em diversas capitais brasileiras e cidades médias do interior. É uma droga sabidamente devastadora, que provoca alterações na estrutura do funcionamento cerebral.
Não existe uma fórmula para se tratar igualmente todos os dependentes de crack. Muito embora o cérebro do usuário possa ser reparado, o atendimento requer múltiplos recursos e a recuperação é, normalmente, de longo prazo. Há pessoas que chegam a passar cinco, sete anos sem crack e recaem no uso da droga, muitas vezes incentivados por algum fator externo, como decepções e outros problemas de fundo emocional.
O governo do Estado de São Paulo, reconhecendo a questão do crack como sério problema de saúde pública, implantou uma política de enfrentamento ousada e ao mesmo tempo polêmica. O Estado colocou o dedo na ferida e decidiu agir. A omissão do poder público, de longa data em todas as esferas do SUS (Sistema Único de Saúde), deu lugar, em São Paulo, ao compromisso inequívoco de adotar medidas urgentes e necessárias para proteger os usuários e seus familiares.

Algumas experiências realizadas nos últimos anos pela Secretaria de Estado da Saúde, e que se mostraram satisfatórias no tratamento de dependentes químicos, vêm sendo articuladas e gradativamente expandidas para todo o Estado, no sentido de integrar e fortalecer uma rede composta por Caps AD (Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas), programas ambulatoriais, hospitais-dia, prontos-socorros de psiquiatria, enfermarias especializadas, moradias assistidas, comunidades terapêuticas e serviços de reinserção social.
É o princípio de uma longa jornada, mas percebe-se, em São Paulo, uma positiva movimentação que já começa a dar resultados. Após ampliar a rede de leitos de internação e assistência multiprofissional para dependentes químicos pelo SUS, que hoje somam 910 vagas e chegarão a 1,2 mil até 2014, o governo uniu Judiciário, Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil em um Plantão Judiciário montado no Cratod (Centro de Referência em Álcool, Tabaco e outras Drogas), unidade de saúde estadual vizinha da Cracolância, para acelerar os processos de internação involuntária e compulsória, previstas em lei federal, em casos de extrema gravidade e necessidade.
A internação “à força”, como é conhecida, não é um ato de cárcere-privado, mas de solidariedade, coerção com compaixão, que visa tentar salvar a vida de quem, no auge da sua dependência, não consegue discernir sobre quão grave é seu estado de saúde. Na Suécia, 30% do tratamento psiquiátrico é compulsório. Os EUA têm pesquisas que demonstram a eficiência desse tratamento e a classe média brasileira já adota isso há muito tempo. Por que não estender esse benefício também aos mais pobres?

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O efeito colateral do Plantão Judiciário foi uma corrida de familiares de usuários de crack ao Cratod. Ali eles enxergaram uma esperança, uma mão estendida. Até 4 de março, segundo números disponibilizados pelo governo, foram 12.251 ligações ao serviço (quase 300 por dia), 2.370 acolhimentos e 319 internações, das quais 23 involuntárias. O governo abriu mais leitos para atender à demanda. E ainda encontra a resistência de muitas famílias, que veem na internação a única saída para os dependentes, quando na verdade é o último recurso.
São no mínimo precipitadas certas conclusões sobre a condução da nova política estadual de combate ao crack em São Paulo. Somos o único estado que está criando uma rede assistencial, com qualidade e diversidade, e com um foco claro de apoio aos familiares. O caminho é longo e tortuoso. Ajustes e correções de rumo talvez sejam necessários. É só o começo de uma batalha em nome da vida.

Fonte: RONALDO LARANJEIRA, 56, Professor Titular de Psiquiatria e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

 

Sobre Juliana Sartore

Educadora Física no Hospital João Evangelista e Hospital Dia. Pós-graduada em Atividade Física Adaptada e Saúde (UNIFMU) e Psicomotricidade (UCAMPROMINAS).
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