Espiritualidade & Saúde Mental Espiritualidade na prática clínica.

Imagem

Desde que o homem se entende como ser pensante, ele
vem usando a espiritualidade para entender o significado
da vida e da morte, de sua presença no mundo, melhorar
sua saúde e como ferramenta para lidar com (coping) as
adversidades e a dor, seja ela física, moral ou espiritual.
As grandes civilizações do passado sempre usaram os
conhecimentos religiosos para tratar as doenças, seja isoladamente
ou como coadjuvantes às práticas médicas incipientes.
Além disso, utilizava-se a espiritualidade, também,
para obter melhor qualidade de vida na saúde mental, garantindo
paz e harmonia. Estudos arqueológicos nos mostram
que os sacerdotes, considerados os primeiros terapeutas,
egípcios, hindus e chineses incluíam uma série de rituais
espirituais na obtenção da cura de muitas moléstias que
acometiam a humanidade (Koenig et al., 2001). Entretanto,
somente na Grécia antiga, com o advento da medicina
hipocrática, o homem vai tentar racionalizar essas crenças e
práticas, retirando-as do mundo mítico e criando um sistema
que pudesse entender de forma racional o impacto que
atitudes, crenças, hábitos, ambientes ou ervas causavam no
organismo humano (Reale, 2002). Platão combina ciência
com elementos espirituais, enfatizando a necessidade
de tratar a “alma” bem como o corpo físico. Nasce aí um
esboço do que viria a ser a propedêutica e a medicina baseada
em evidências.
Por que abordar espiritualidade – razões clínicas
Muitos profissionais da área da saúde devem se perguntar
por quais razões deveriam abordar a espiritualidade na prática
clínica. Enumeramos, a seguir, apenas algumas que já
nos apontam para essa necessidade:
• Muitos pacientes são religiosos e gostariam  de abordar
isso nos cuidados em saúde (King e Bushwick, 1994).
• Muitos pacientes têm necessidades espirituais relacionadas
a doenças que poderiam afetar sua saúde
mental, mas elas não são atendidas.
• Pacientes, particularmente quando hospitalizados,
são frequentemente isolados de suas comunidades
religiosas.
• Crenças religiosas afetam decisões médicas e podem conflitar
com tratamentos (Coakley e McKenna, 1986).
• As religiões influenciam cuidados de saúde na comunidade
(Koenig e Larson, 1998).
• A Joint Commission on Accreditation of Healthcare
Organizations, uma entidade internacional de acreditação
de hospitais, tem como um dos pré-requisitos
para dar o certificado de qualidade a exigência de
abordar espiritualidade.
Outra pergunta que a grande maioria dos médicos e profissionais
da área da saúde deve se fazer é esta: crenças religiosas
influenciam as decisões dos pacientes sobre seu tratamento?
E a resposta para essa pergunta é: crenças religiosas influenciam
dieta, cooperação com o tratamento médico, receber
químio ou radioterapia, aceitar transfusão de sangue,
vacinar crianças, cuidado pré-natal, tomar antibióticos e
medicamentos, mudar o estilo de vida, aceitar o encaminhamento
a um psicólogo ou psiquiatra, bem como retornar à
consulta médica. Fé em Deus ficou em segundo lugar de
sete fatores que mais comumente influenciaram a decisão
de aceitar quimioterapia. Crenças religiosas podem conflitar
com tratamentos médicos e psiquiátricos, afetar tomadas de
decisões no fim da vida, como doação de órgãos ou retirada
de alimentação ou suporte ventilatório. Certos grupos fundamentalistas
não acreditam em medicações antidepressivas
ou psicoterapia. Muitos religiosos podem buscar apenas tratamentos
religiosos e recusar um tratamento médico concomitante
(Koenig, 2007; Pargament, 1997).
Como abordar a espiritualidade na prática clínica
Uma vez que reconhecemos existirem razões para abordarmos
a espiritualidade em nossa prática diária, a pergunta seguinte
é como faremos isso? As recomendações incluem, mas não
estão limitadas exclusivamente a estas: ouvir com o objetivo
de entender, mostrar respeito pelas (des)crenças religiosas/espirituais
do paciente, apoiar essas crenças e encaminhá-lo de
maneira apropriada para o especialista quando indicado.
Mas talvez a maneira mais importante, eficaz e segura
de abordar essa temática seja por meio da coleta da história
espiritual.
Instrumentos e aplicações
Sugerimos que o profissional colha uma história espiritual
antes de se aventurar a apoiar o paciente em suas necessidades
espirituais. Isso em geral não leva mais que cinco
minutos. Os seguintes passos deveriam ser tomados antes de
se obter uma história espiritual (Koenig, 2007; Kristeller et al.,
2005; McCord et al., 2004):
• Profissionais da saúde devem colher uma história
espiritual de todos os pacientes com doenças sérias,
crônicas e quando da perda de pessoas amadas.
• O médico deve tirar a história espiritual; na ausência ou
desinteresse deste, outro profissional poderá fazê-lo.
• Uma explicação breve deve preceder a história espiritual.
• Informação que precisa ser obtida durante a história
espiritual (centralizadas nas crenças do paciente
– o objetivo é entender as crenças do paciente e qual sua
participação na saúde e na doença, sem julgamento ou
tentativa de modificar crenças ou a falta delas).
• Informações da história espiritual devem ser documentadas
no prontuário para que outros profissionais
tenham acesso a elas.
• Deve-se fazer referência para o capelão ou outro líder
religioso se forem identificadas necessidades espirituais.
Hoje já contamos com várias escalas que nos ajudam a
abordar a espiritualidade/religiosidade dos pacientes. Anexamos
aqui as que, de nosso ponto de vista, são as mais
simples, práticas e fáceis de usar na clínica.
O médico Harold G. Koenig, coordenador do Duke
Center for Spirituality, Theology and Health, Duke University,
School of Medicine-Durham, NC-USA, um dos
maiores especialistas e pesquisadores nessa questão, criou
uma escala de fácil memorização e aplicação:
A história espiritual – CSI-MEMO (Koenig, 2007)
• Suas crenças religiosas/espirituais oferecem conforto
ou são fontes de estresse?
• Você tem crenças espirituais que podem influenciar
suas decisões médicas?
• Você é membro de alguma comunidade espiritual ou
religiosa, e ela oferece apoio? Qual?
• Você tem outras necessidades espirituais que gostaria
que alguém as atendesse?
4. Ação no cuidado
O médico e os outros profissionais da saúde deveriam
pensar sobre o que fazer com as informações
compartilhadas pelo paciente: conduzir a um capelão,
outro cuidador espiritual ou outros recursos, tais como
ioga, meditação ou aconselhamento pastoral. Alguns
pacientes usam rituais ou jornadas/retiros, rezas, sacramentos,
música, arte, leitura de material religioso,
filmes etc.
Certamente você deve se perguntar: e se o paciente
não tem uma religião? Se ele é agnóstico ou mesmo ateu,
de que maneira se pode acessar informações relevantes
concernentes a crenças culturais que possam influenciar
minha prática clínica? É importante termos em mente
que não só crenças religiosas/espirituais influenciam e
impactam condutas médicas, mas também as culturais
como um todo.

Até agora, a medicina só conseguiu levantar uma pequena
ponta do véu que encobre essa instigante e aparentemente
frutífera relação entre espiritualidade e saúde. Muito mais
pesquisas são necessárias para esclarecer melhor como a espiritualidade
pode afetar positiva e negativamente a saúde
física e mental das pessoas. A despeito da necessidade desse
avanço, já dispomos, no momento, de farto material científico
que nos permite integrar a espiritualidade em nossa
prática clínica com um mínimo de segurança e, o que parece
ser mais animador, com potenciais benefícios na saúde
dos pacientes.
                 
Fonte: http://www.hoje.org.br/site/arq/artigos/Espiritual4.pdf

Sobre negreiroscassia

Graduada em Enfermagem pela Universidade Cruzeiro do Sul. Curso de Capacitaçao em Psiquiatria. Especializaçao em Gerontologia. Enfermeira do Hospital Hoje.
Esse post foi publicado em Notícias e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s