‘O impacto das doenças mentais é maior que o das cardiovasculares’, diz pesquisador

Diretor do Instituto de Psicologia Clínica da Universidade de Dresden, na Alemanha, afirma que aumento de casos de ansiedade e depressão é tendência também no Brasil

BERLIM – Mais de 160 milhões de pessoas sofrem de doenças mentais na Europa, a maioria de ansiedade e depressão, os chamados distúrbios de humor. Hans-Ulrich Wittchen, diretor do Instituto de Psicologia Clínica e Psicoterapia da Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha, afirma que a tendência existe também nos Estados Unidos e no Brasil, e atinge mais as mulheres que os homens.

Por que há hoje mais casos de depressão do que antes?

Nos últimos dez anos, um número maior de europeus passou a sofrer de doenças mentais. Os distúrbios são graves e afetam as pessoas por mais tempo, muitas vezes a vida inteira. É que houve um aumento da expectativa de vida, as pessoas vivem mais e o tempo de duração da doença é também maior. Em quase todos os países, a expectativa de vida aumentou em oito anos nas últimas décadas, e pessoas idosas são também mais propensas à depressão.

Nosso estudo é sobre a Europa, mas a tendência ocorre no mundo inteiro, também nos Estados Unidos e no Brasil. Na Europa, 164 milhões de pessoas sofrem de distúrbios mentais. As doenças psíquicas são o maior desafio para o sistema de saúde europeu no século XXI. O relatório anual do Conselho Europeu do Cérebro, de 2011, revela que 50% dos custos totais de saúde são investidos no diagnóstico e na terapia de doenças cardíacas ou diabetes, enquanto apenas 23% dos custos são gastos com os distúrbios mentais.

Os problemas mentais são considerados menos graves?

Exatamente. E eles são muito graves, para os pacientes e também para a sociedade. É claro que é grave quando alguém sofre um infarto ou desenvolve diabetes, mas o impacto das doenças mentais é maior para a sociedade, porque faz com que pessoas, aparentemente saudáveis, passem 30 anos sem conseguir trabalhar. Os custos para a sociedade são de bilhões e bilhões de euros. A doença ataca mais mulheres do que homens, e isso ocorre porque as mulheres têm uma jornada dupla — cuidam dos filhos, da casa, trabalham fora — e, além disso, porque elas vivem em média seis anos a mais do que os homens.

Qual é o papel do estresse da vida moderna no aumento dos casos de depressão?

O estresse pode fazer surgir um novo caso de depressão. Por outro lado, as pessoas que sofrem de depressão sentem mais estresse em alguns tipos de atividades que para outras pessoas não teriam o mesmo peso, como cuidar dos filhos ou realizar as tarefas profissionais. Uma pessoa em depressão não aguenta trabalhar oito horas diárias consecutivas, por isso os efeitos da doença são graves para a sociedade.

Quer dizer que as pessoas sofrem mais de estresse porque já sofrem de um distúrbio psíquico?

Exatamente. O estresse sozinho não causa doenças mentais. Observe países onde as pessoas sofrem muito, passam fome, vivem em terríveis condições de pobreza, ou em guerra civil. Essas pessoas têm um alto nível de estresse, mas não têm mais doenças mentais do que em países onde não há fome ou guerra civil. O ser humano aprendeu a conviver com essas situações ao longo da evolução. Nós aprendemos a lutar pela sobrevivência, mas nós não aprendemos a conviver com a situação de não saber o que fazer profissionalmente.

Quais são os distúrbios mentais mais frequentes?

O mais frequente é a ansiedade, que afeta cerca de 14% da população, a depressão grave vem em segundo lugar, com 7%. Muitas vezes, a doença começa com ansiedade para mais tarde virar depressão.

Quais são as causas?

Ter medo sempre foi algo importante na história da evolução, toda pessoa pode ter medo de vez em quando e isso é inteiramente normal. O medo nos ajudou a sobreviver. Ficar triste também faz parte da condição humana, isso mostra que há regulação entre o medo, a angústia e a depressão. Mas em situações extremas da vida, desafios para as quais a pessoa não está preparada, o mecanismo normal de regulação não funciona e a pessoa pode adoecer de depressão. As condições sociais são um terreno fértil para a doença, mas a depressão não é causada só pelo estresse.

O senhor disse que a ansiedade e a depressão podem ser sentimentos comuns, inerentes ao ser humano. A partir de quando o senhor definiria os dois distúrbios como doenças mentais?

Trata-se de uma pergunta tão difícil de responder quanto delimitar quando começa exatamente a diabetes. Há uma série de critérios, mas, para simplificar, tudo o que é passageiro pode ser um estado de espírito, como o ficar triste. Falamos sobre depressão quando a situação é constante, dia após dia, noite após noite, sem que a pessoa melhore.

A depressão é o que motiva as pessoas que tentam o suicídio?

Não. O suicídio tem algo a ver com depressão mas esta, sozinha, não é a causa do suicídio. Um paciente de depressão não tem a energia para praticar o suicídio. Já o paciente de síndrome de pânico que tem também depressão, sim.

Há progressos na terapia contra a depressão?

Nos últimos 20 anos, com o surgimento de novos medicamentos e métodos de terapia, os distúrbios mentais passaram a ser tratados com mais eficácia. Há muitos novos antidepressivos e o tratamento começou a ser personalizado, leva em consideração o metabolismo da substância no fígado, o que é influenciado pela constituição genética. Com isso, é possível controlar melhor o medicamento e, além disso, há novas terapias complementares de comportamento.

Qual é o objetivo do projeto de pesquisa das doenças mentais da União Europeia, do qual o senhor participa?

O projeto tem em vista uma conscientização maior e combate dos distúrbios mentais através da pesquisa. A UE nos passou a tarefa de fazer um mapeamento das doenças mentais e um plano de ação sobre o que precisa ser feito nos próximos 20 anos para o combate aos principais problemas. Finalmente, a UE passou a levar muito a sério os distúrbios psíquicos.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/saude/o-impacto-das-doencas-mentais-maior-que-das-cardiovasculares-diz-pesquisador-6548541#ixzz2Aj0j1kIy

Fonte: O Globo

Sobre Dr. Alexandre B. Chehin

Médico Psiquiatra e Diretor Clínico do Hospital João Evangelista. Pós–graduando do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP–EPM). Especialização em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP. Residência em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP–EPM). Graduação em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP–EPM)
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