Não há relação entre loucura e mediunidade, mostra estudo do Dr Alexander Moreira-Almeida, professor da UFJF e membro do Conselho Administrativo do HOJE

Esta reportagem foi publicada há algum tempo, mas vale a pena ser revista. O Dr Alexander Moreira-Almeida é psiquiatra, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e membro do Conselho Diretor do HOJE. Ele realizou uma pesquisa que mostrou que a mediunidade se constitui numa vivência diferente dos transtornos mentais. Este estudo inspirou a reportagem abaixo.

Boa leitura!

Fonte: Jornal O tempo

Ele tinha apenas 5 anos quando perdeu a mãe. Logo depois, o menino começou a ouvir vozes e ver espíritos. Incompreendido pela família e pela sociedade de Pedro Leopoldo, o garoto foi taxado de louco e doente. Muitos anos depois, Chico Xavier ficou mundialmente conhecido.

Ainda hoje, o médium é um dos brasileiros mais respeitados e admirados no país. A incompreensão vivida por Chico Xavier há 95 anos ainda é uma questão atual. Afinal, ouvir vozes, ter visões e sensações que não são percebidas por todos podem ser sinais comuns entre pessoas que têm transtornos mentais e aquelas com a mediunidade aflorada.

Para traçar as diferenças e o limite entre os psicóticos e os médiuns, estudiosos do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora, realizam um levantamento sobre o tema.

Os resultados preliminares mostram que os dois casos são distintos. O professor de psiquiatria e coordenador do Nupes, Alexander Moreira Almeida, explica que o trabalho começou em 2001, quando ele desenvolvia seu doutorado. Na época, acompanhou a vivência de 115 médiuns na cidade de São Paulo. Eram pessoas adultas que manifestaram sua mediunidade ainda na infância. O professor constatou que, enquanto a incidência de problemas psiquiátricos na população em geral era de até 20%, entre os médiuns avaliados o índice foi de 7,8%.

“Os médiuns apresentaram baixa prevalência de problemas psiquiátricos e bom ajustamento social, com alta escolaridade e baixo desemprego. A maioria teve o início de suas manifestações mediúnicas na infância, e elas, atualmente, não necessariamente implicam um diagnóstico de esquizofrenia. A mediunidade se constitui numa vivência diferente do transtorno de personalidade múltipla”.

O estudo também revela que a percepção sobre a experiência de ouvir vozes ou ter visões, por exemplo, em doentes psiquiátricos e médiuns é distinta (veja quadro abaixo). As reações nos dois casos são diferentes.

No ano passado, a pesquisa entrou na segunda fase, que será concluída em 2011. Os estudiosos analisam o comportamento de 120 pessoas em Juiz de Fora que, há pouco tempo, descobriram a mediunidade. O professor explica que, para o estudo, a mediunidade é definida como uma experiência em que o indivíduo (médium) alega estar em comunicação com ou sob a influência de uma pessoa falecida ou de outro ser não material.

O psiquiatra João Eduardo Vilela diz que não existem muitos estudos conclusivos sobre a espiritualidade. Mas ele esclarece que, na psiquiatria, um paciente não é tratado como esquizofrênico somente por relatar ouvir vozes ou ter visões. “Para que um caso seja diagnosticado como psicótico é preciso que a pessoa tenha outros sintomas, como falta de percepção de afeto e de contato com as pessoas. Um esquizofrênico pode dizer que te adora e, ao mesmo tempo, te agredir fisicamente. Ele tem vozes dentro de si que são conflituosas. Esse tipo de comportamento não costuma se apresentar em médiuns”, conta.

O presidente da União Espírita Mineira, Marival Veloso de Matos, acredita que a pesquisa pode ser uma maneira de enterrar o preconceito que resiste para com os espíritas. Há 67 anos, uma das 13 irmãs de Veloso começou a apresentar sintomas, como confusão e desmaios, que levaram a família a pensar que ela estava doente. Depois de ir a muitos médicos e nenhum deles melhorar o estado da criança, a família decidiu procurar um centro espírita. Em 15 dias, ela estava bem e, segundo Veloso, se livrou do espírito obsessor que a perturbava.

Depois da experiência, toda a família se converteu do catolicismo ao espiritismo. “O preconceito com os espíritas está menor, mas muitas pessoas ainda fazem essa confusão entre mediunidade e loucura. Muitas vezes, alguém que esteve em hospital psiquiátrico começou com uma manifestação mediúnica. Mas como a família e a sociedade não entendem, a situação pode se agravar com a ingestão de medicamentos fortes para loucura”.

“Pensei que estava esquizofrênica”

A jovem médica tinha 25 anos quando começou a ver e a sentir a presença de espíritos ao seu lado. Sempre acostumada a ver a vida como uma ciência, ela conta que, filha de uma mãe muito católica, teve dificuldades em aceitar a sua espiritualidade. Ela não quis se identificar por medo do preconceito dos seus pacientes e colegas de trabalho.

Hoje, aos 33, a médica afirma que, no início, chegou a pensar que estava esquizofrênica. “Quando tive as primeiras manifestações, conversei com uma irmã pensando que estava louca. Ela me levou a um centro espírita e percebi que era o meu lado espiritual. Ainda tenho dificuldades de lidar com essa questão. Quando um espírito se aproxima de mim, sua imagem se forma e consigo ver como ele era. Sinto o que ele sentiu ao desencarnar. Parece estranho, mas é o que acontece”, revela.

O professor de psiquiatria e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde, da Universidade Federal de Juiz de Fora, Alexander Almeida, lembra que entre meados dos séculos XIX e XX, a mediunidade foi, na maior parte das vezes, considerada um indicador de grave trans torno mental. “Nas últimas décadas, as vivências mediúnicas têm sido prevalecentes. Entretanto, as experiências não indicam a presença de transtorno mental.

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