Hábito alimentar pode estar relacionado a comportamento autista

Pesquisa estabelece relação entre hábito alimentar e síndrome do espectro autista

Um tratamento alternativo para o autismo, síndrome que afeta todas as áreas do comportamento humano, é o foco de uma pesquisa na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP em Piracicaba. A partir do aumento de número de pais que utilizam uma terapêutica coadjuvante para o controle dos sintomas em seus filhos, os pesquisadores estabeleceram uma relação entre hábito alimentar e síndrome do espectro autista.

“A pesquisa teve como objetivos identificar o padrão de hábito alimentar de um grupo de autistas, promover testes para o desenvolvimento de métodos de análises laboratoriais que comprovem a eficiência da dieta isenta de glúten e caseína no controle dos sintomas da doença e, também identificar a ocorrência de alterações do metabolismo da creatina, associadas a ocorrência do autismo, a partir da análise da concentração de creatina em urina”, conta Nádia Isaac da Silva, do programa de pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da Esalq, que participou do trabalho.

O estudo foi conduzido com uma população de 28 autistas com idade entre 2 a 33 anos e que a triagem foi realizada no Centro Municipal de Especialização do Autista (CEMA) da cidade de Limeira (SP), e no Núcleo de Especialização e Socialização do Autista (NESSA) da cidade de Mogi-Guaçú (SP). Os resultados sobre a caracterização da população indicaram que um terço dos pais de autistas possuem baixa escolaridade e 60% renda familiar na faixa de 2 a 4 salários mínimos. Segundo o método de avaliação CARS, 64% dos autistas são casos graves e 68% se encontram na faixa de retardo mental. A renite alérgica é a patologia de maior prevalência na população estudada. Em média, 60,71% dos autistas apresentam sintomas gástricos, sendo o mais freqüente a flatulência (39,90%).

O registro sobre comportamento alimentar identificou que 50% dos autistas expressam o comportamento de comerem muito rápido e 46,43% consomem porções exageradas de alimentos. Esse fato influencia diretamente no hábito alimentar.

A avaliação de adequação de consumo de nutrientes revelou que 57,14% têm o consumo de energia superior ao recomendado e baixo consumo de fibras, ácido ascórbico e cálcio. Já as análises de concentração de creatinina revelaram que os valores são significativamente inferiores em crianças autistas e do grupo controle formados por parentes distantes e que são similares quando comparado com grupo formado por seus pais.

Tratamento
Os tratamentos mais populares para o autismo são dietas que orientam para a exclusão de alguns alimentos ou grupo de alimentos. Entre as diversas dietas propostas, a mais popular é a dieta isenta de glúten (proteína presente no trigo) e caseína (proteína presente no leite e derivados). Porém, a análise dos estudos que comprovam a eficácia da dieta isenta de glúten e caseína tem sido criticada devido a questões importantes como o desconhecimento de um padrão alimentar que possa favorecer o agravamento dos sintomas do autismo e ausência de análises laboratoriais que comprovem a eficácia da dieta. Outra hipótese é de que distúrbios do metabolismo da creatina também estão integrados à doença.

A pesquisadora revela que para atingir os objetivos da pesquisa foi elaborada uma anamnese nutricional (teste recordatório) contendo questões sobre características sociodemográficas das famílias dos autistas participantes, histórico pessoal de doenças, comportamento autista durante as refeições e levantamento de hábito alimentar. Para caracterizar o quadro clínico da população foi realizada uma avaliação psicológica por método quantitativo Childhood Austism Rating Scale (CARS). As concentrações de creatina na urina dos autistas e grupo controle formado por parentes do mesmo sexo foi determinada pelo método de Jaffé otimizado.

Segundo a pesquisadora, o conhecimento do hábito alimentar e, principalmente, o desenvolvimento de métodos de análises que comprovem concentrações inadequadas de peptídeos opiáceos derivados do glúten e da caseína ainda é um desafio. “Hoje é necessária a realização de pesquisas para criar metodologias de análise de peptídeos opioides em fluidos corpóreos mais confiáveis, passíveis de reprodução”, aponta. ”Na literatura, os resultados positivos obtidos em estudos não são replicáveis, formando uma lacuna para a compreensão da relação entre alimentação e comportamento autista”.

Para a professora Jocelem Mastrodi Salgado, orientadora do estudo, “a importância dessa pesquisa é mostrar que tanto o conhecimento como a compreensão dos fatores associados à patologia e ao emprego de exames laboratoriais seguros irão contribuir para um diagnóstico precoce da doença, possibilitando o acesso a tratamentos mais adequados”. A professora afirma ainda que “as pesquisas com finalidade de criar novos tratamentos coadjuvantes e biomarcadores confiáveis de diagnóstico para o autismo são de grande importância em um país como o Brasil em virtude do elevado número de casos de autistas que não tem acesso ao diagnóstico e nem tratamento adequado”.

Segundo a professora da Esalq, não existem no País dados oficiais sobre a prevalência do autismo, porém há informações que apontam para a média de 50 mil autistas e a existência de cerca de um milhão de portadores sem diagnóstico. O projeto de pesquisa foi desenvolvido nos laboratórios de Nutrição Humana do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição (LAN), sob orientação de Jocelem Mastrodi Salgado, em parceria com o de Genética de Plantas Max Feffer do Departamento de Genética (LGN) da ESALQ, cujo responsável é Carlos Alberto Labate, e, ainda, Laboratório de Bioquímica e Biofísica do Departamento de Bioquímica do Instituto Butantan, sob responsabilidade de Ivo Lebrun.

Mais informações sobre a pesquisa:  nisilva@esalq.usp.br, com Nádia Isaac da Silva

Fonte: Agência USP de Notícias

Sobre Juliana P. Vasconcellos Sciorilli

Nutricionista do Hospital João Evangelista; Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo - USP; Graduação em Nutrição pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo – USP
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